Economia & Negócios

Publicado: Quarta-feira, 30 de junho de 2010

Melhor idade troca a agulha pelo mouse e invade a Internet

Idosos têm adquirido cada vez mais o hábito de utilizar PCs.

Crédito: Maisde50 Melhor idade troca a agulha pelo mouse e invade a Internet
Participantes da rede social Mais 50 em socialização: além do contato virtual, o toque pessoal

Por Leandro Sarubo

A figura da vovó tricotando nas tardes de sábado está com a taxa de bytes cada vez mais baixa. Não é segredo pra ninguém: a inclusão digital abraçou a melhor idade. E, em tom singelo, mandou para o disco virtual os bolinhos de chuva e o sanduíche de novelas e telejornais, o então prato principal das pessoas dessa faixa etária quando o assunto era contato com a tecnologia.

Os idosos representam 12% da população, segundo dados oficiais do governo paulista. O índice é 3 pontos percentuais superior à média nacional. Até 2025, conforme o boletim “SP Demográfico”, editado pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), o número de habitantes com mais de 60 anos será superior ao dos jovens com até 14 anos. Teremos cerca de 8,6 milhões de idosos daqui 15 anos. Mais um indício que teremos mais mouses do que agulhas ou baralhos nas mãos da melhor idade.

No Brasil, atualmente, é difícil traçar o número oficial de internautas e a audiência da web em redes sociais. Isso se dá devido a variedade de institutos de pesquisa que lançam dados e a falta de uniformidade dos mesmos nas metodologias aplicadas. O que há de mais palpável é que o número de pessoas acima dos 65 anos com acesso à web, segundo o Ibope, dobrou de 2006 para 2008, atingindo 25%. Número que tende a subir se houver mobilização, pessoal e governamental, pela inclusão digital.

Em São Paulo já existem projetos de inclusão digital privilegiando os mais velhos. O Acessa São Paulo, lançado em 2000, tenta extinguir a exclusão digital oferecendo computadores e cursos para que os cidadãos conheçam as nuances dos PCs e mergulhem na adorável caixa de Pandora que é a Internet. O percentual de idosos frequentadores dos postos do Acessa também dobrou entre 2006 e 2008 segundo a Ponline, responsável pela pesquisa de perfil do projeto. Quase 1% (0,8%) dos usuários tem mais de 60 anos.

O crescente contingente de pessoas mais velhas acessando a Internet afeta diretamente o mercado do e-commerce brasileiro. 44% dos internautas já fizeram compras pelo menos uma vez. E cada vez mais os idosos engrossam esses números. 1 a cada 5 “e-consumidores” da melhor idade realizam compras.

Fora do Brasil esse público tem aderido à web e ao e-commerce com mais avidez ainda. Segundo o instituto Nielsen, o similar americano do Ibope, o numero de pessoas acima de 65 anos conectados aumentou para 175 milhões em novembro de 2009. Isto sem contabilizar os idosos que usam o computador mas não acessam a Internet.

Vida sem fio

Michelle Scott, 76, é internauta desde a conexão discada, aquela que tinha velocidade modesta e bloqueava nossa linha telefônica. Começou a aventura a pedido dos filhos, que trouxeram um PC à casa para que a relação tivesse enfim um início. Hoje Scott considera a internet mais relaxante que a televisão e, quase todos os dias, após seu jantar, se diverte “viajando sentada na minha poltrona”.

Além das vantagens da comunicação - Michelle considera a Internet mais prática que o telefone -, a possibilidade de fazer amizades e iniciar os processos interativos disponíveis tornam a ferramenta realmente mais atraente que a televisão, um tanto perdida com esta sua nova concorrente. Que programa da TV Globo ou do Discovery Channel traria a oportunidade de voltar, in loco, a momentos da infância?

“(Foi) Uma coisa mágica. Eu estava entrando no Google Earth e decidi procurer o vilarejo onde morei na década de 40, durante a segunda guerra mundial, ver a casa que me escondi em Bordeaux, ponto do final do bonde, tinha 10 anos nesta época. E encontrei”, diz Scott.

E esta não foi a única experiência. Participando de uma série de fóruns, alguns na França, Michelle conseguiu, com o apoio dos amigos e colegas, montar sua árvore genealógica. Ela só não participa de redes sociais por considerar o ambiente anárquico. “É coisa de garotada, de gente jovem, existe também a questão da segurança.”

Redes Sociais

Michelle tem um comportamento virtual diferente quando comparado à média americana. Na terra de Steve Jobs é maciço o interesse pelas redes sociais, interesse puxado pelo Eons, site especializado na faixa mais avançada de idade.

Em 2009, observando esse crescimento no número internautas com idade superior a 60 anos e o interesse deles pelas redes sociais, pesquisadores americanos que se concentram no estudo do envelhecimento passaram a estudar o fenômeno, investigando se a internet ofereceria benefícios semelhantes ao das amizades reais.

"Um dos maiores desafios ou perdas que enfrentamos ao envelhecer, francamente, não se refere à saúde mas à deterioração de nossa rede social, porque nossos amigos adoecem, nossos cônjuges morrem, nós nos mudamos", disse Joseph Coughlin , diretor do Laboratório do Envelhecimento no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ao New York Times.

O Brasil tem seu próprio Eons, em roupagem mais abrangente: trata-se do Mais50, rede criada no ano 2000 por uma equipe formada por profissionais de diversas áreas diversas.

Composto por 150 mil pessoas, o site foi idealizado, segundo a jornalista Maria da Luz Miranda, uma das percussoras do projeto, para oferecer informação sobre as questões essenciais que envolvem o envelhecer nas circunstâncias atuais (leia entrevista com a criadora do site).

Além da ação virtual, o Mais 50 promove, a pedido dos participantes, dinâmicas sociais. A última aconteceu entre os dias 21 e 23 de maio. A equipe do site estudou a melhor maneira para estabelecer essa mediação, consultando especialistas. “Não queríamos meramente fazer turismo com eles. Daí que chegamos ao formato em que mesclamos reflexão, discussões, troca de idéias, e lazer, claro, porque eles também querem e porque é importante”

Tania Pinheiro de Barcelos é usuária do Mais50 desde 2000. Simpática e muito dinâmica, a internauta conheceu o site em uma época que tinha um grupo numa sala de bate-papo, num sitema que lembrava, como ela mesmo descreve, rodas de radio amador.

Usuária também do Orkut, onde é mais rigorosa em relação aos usos, Tania considera a internet uma diversão que melhorou sua qualidade de vida. “Eu adoro viajar pela internet. Você tem uma facilidade maior, uma acessibilidade maior para praticamente tudo.”

Manoel Carlos e Silvio de Abreu que comecem a twittar.

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