Opinião

Publicado: Quinta-feira, 4 de março de 2010

Mércia Falcini: Internet atrapalha a educação das crianças?

Crédito: Arquivo pessoal Mércia Falcini: Internet atrapalha a educação das crianças?
"Não podemos ignorar que a formação completa da personalidade só acontece por volta dos 21 anos de idade. Até lá, todo cuidado é pouco"

Sempre defendi o uso da Internet como recurso de aprendizagem, e mais ainda como a linguagem adequada e eficiente para a geração dos nossos filhos. Ocorre que estudos têm revelado que os jovens não usam a Internet para adquirir informações e ampliar o conhecimento - sem dúvida, o grande benefício dessa conquista.

A Internet é um campo aberto de todas as possibilidades. Com a mesma intensidade, pode inspirar o bem e o mal. Por isso, e mesmo que isso possa nos tirar da zona de conforto, é importante vigiar rigorosamente o uso da Internet pelos filhos adolescentes.

Os sites de relacionamentos, opção preferida de navegação para a maioria dos jovens brasileiros, têm sido explorados por pessoas maldosas e inescrupulosas, que aproveitam do desejo e da curiosidade dos pequenos internautas para doutrinar conceitos, ditar verdades e influenciar comportamentos. O perigo que antigamente morava na esquina, hoje está dentro dos quartos, disfarçado de acesso tecnológico e numa proporção incontrolável. E aqui cabe um alerta maior: as portas dos quartos dos filhos adolescentes não podem ficar fechadas, sobretudo quando estão conectados. Se há o que esconder, desconfie. Conheço um pai, que no desespero extremo da descoberta do perigo vivenciado pela sua filha em sites de relacionamentos arrombou a porta do quarto a chutes e pontapés.

A ciência já comprovou que a fase dos 13 aos 19 anos é o período da vida em que ocorre as transformações mais aparentes no corpo e na mente. O lado emocional é confuso, e na busca da maturidade as oscilações de sentimentos como ódio e amor, são frequentes. Com isso, jovens experimentam as sensações de medo, ansiedade, coragem, angústia, tédio, euforia e insegurança - todas em profundas proporções. É nessa fase também que as neuroses costumam ditar lógicas e comportamentos. A insatisfação com o corpo diferente do padrão estético, por exemplo, já deixou marcas irreversíveis em muitas meninas.

É exatamente nesse ponto que a Internet pode atrapalhar consideravelmente a educação dos filhos: se as neuroses forem alimentadas, e elas têm sido pela Internet, podem tornar-se patológicas. Em alguns casos, irrecuperáveis. Posso explicar: recentemente, acompanhei um caso em que um adolescente ao se deparar com o sentimento da tristeza repentina, sentida em alguns momentos do seu dia, buscou informações sobre o tema pela Internet. Em conversas virtuais, tomou contanto com a patologia do seu sentimento e passou a se alimentar das suas características. Como as pessoas que conversam em salas de bate papos não se conhecem, e não precisam assumir identidade, não estabelecem compromisso com as palavras ditas. Pelo contrário, os exageros e as apologias ganham espaço ilimitado. Quanto mais o garoto buscava informações sobre a depressão e quanto mais se relacionava com pessoas depressivas, mais se comportava como doente. O sofrimento do adolescente e o desespero da família duraram meses. Todas as medidas foram adotadas, inclusive medicamentosas. A proibição do uso da Internet foi primordial.

Felizmente o caso analisado foi recuperado. Sem dúvida, o apoio e a presença da família foram fundamentais. Mas nem sempre é assim. Normalmente os adolescentes tendem a se afastar da família em busca de liberdade e autonomia. Se os pais não estão atentos ou são permissivos em demasia, muito provavelmente, casos como esse podem desencadear tragédias.

A Internet trouxe para a educação de jovens e crianças uma variável inimaginável: o descontrole total das informações e conceitos ensinados aos nossos filhos. A casa solitária, de pais ausentes, de filhos únicos e conectados tem se transformado em alvo fácil e certo para o mundo da maldade e da sacanagem.

Não podemos ignorar que a formação completa da personalidade só acontece por volta dos 21 anos de idade. Até lá, todo cuidado é pouco no desejo de que os filhos cresçam saudáveis e bem resolvidos. Por incrível que pareça, muito pais se afastam e deixam de conversar com os filhos exatamente na fase em que mais eles precisam de orientação. Abordar temas como sexo, drogas, escolhas e relacionamentos é responsabilidade dos pais. Controlar o uso da Internet é obrigação.

Comentários