A dor da perda

Meus textos são recheados de sentimentos vivenciados; eles me inspiram a tecer o fio condutor do que pretendo dizer. Mas nem tudo o que está escrito é o que estou sentindo ou vivendo. Afinal, “todo escritor é um fingidor” − ou seria todo poeta? −; não importa. Quem disse isso mesmo? O desejo mais puro de um escritor, seja ele poeta, cronista ou romancista, na hora de escrever é lançar um jogo de emoções entre ele e o leitor, instigando assim, pelas palavras, uma possível reflexão desta louca e complexa existência humana.
Ocorre que escrever é se mostrar por inteiro, despir-se, ficar nu. Já recebi vários comentários de pessoas queridas, dizendo-me para deixar de escrever, porque nem todos compreendem o sentido literário do que está dito nos meus textos, tornando-me exposta demais.
Não, eu não paro de escrever.
Não tenho vergonha de ficar nua! Na essência da existência as roupas não escondem os sentimentos mais profundos que nos habitam... E eles moram em mim e em você, sem distinção de cor, etnia e raça. Estamos todos nus!
Quero falar das dores e dos amores perdidos sem medo, sem culpa, sem fraqueza. A dor é um sentimento rejeitado pela sociedade e pelos que estão a sua volta. A nossa cultura do riso e das alegrias forçadas não aceita a dor como um sentimento humano, real e legítimo. Lya Luft diz que lidamos mal com a dor uns dos outros. É verdade! Não sabemos respeitar o seu tempo e a sua evolução. Estamos sempre esperando a felicidade mostrada na vitrine, ainda que seja um pacote de ilusão.
Quando me deparei com a dor da perda, entendi que precisava me recolher para viver o luto até o seu mais profundo sentimento de dor: chorei, afastei-me, fugi, desmanchei-me. Sabia de forma consciente que o tempo de luto, vivido num período sensato, seria necessário para me refazer e renascer.
No entanto, não foram poucos os recados enviados por pessoas bem-intencionadas, para que eu me arrumasse e saísse de casa; mostrasse aos outros que eu estava inteira, forte, poderosa. Lamentavelmente não pude atender aos tais conselhos. Preferi viver, no meu canto, o período em que a dor recebe permissão para se manifestar dentro da gente, conduzindo os desejos mais primitivos: quebrar as lembranças, rasgar o passado, retirar os cacos e varrer a alma.
E por mais que a sociedade insista na cultura da felicidade fingida, não há nada de fraqueza nessa atitude. Ao contrário, sem o luto “a dor ficará soterrada debaixo de futilidades, sua raiz enterrando-se mais fundo, seu fogo queimando nossas últimas reservas de vitalidade e fechando todas as saídas”, como diz Lya em seu “Perdas & Ganhos”.