A vida que queremos ter

Recentemente acompanhei uma pesquisa literária. Ela não sai da minha cabeça. A pesquisadora, que é escritora, desenvolveu uma série de entrevistas para investigar o sentimento que ficou da adolescência na vida de homens adultos. A escritora buscava elementos para melhor conceber a personagem principal de sua última obra. Não foi esse o motivo que me fez escrever as palavras a seguir.
O que não sai da minha cabeça é a dificuldade da mente humana, sobretudo na juventude, para compreender que o futuro não é um destino pronto e definido e que as nossas ações refletem substancialmente na vida que queremos ter. É essa dificuldade que desmotiva a vida escolar, que impulsiona a busca por prazeres imediatos e que determina atitudes impensadas. Como diz a autora da pesquisa: “O futuro, na verdade, está embutido nas nossas decisões no momento presente”.
A pergunta central da pesquisa: “O que você gostaria de ter sabido aos 13,14 ou 15 anos de idade e, ao sabê-lo, sua vida teria sido mais fácil?”, ofereceu para Anna Osta material importante na construção do “Crescendo na Terra do Nunca”, belo livro ainda no prelo. A mim, a certeza do desafio educacional na construção de valores humanos e projetos de vida.
Ainda que pareça característica exclusiva da imaturidade, a dificuldade em compreender que as escolhas de hoje interferem no que está por vir tem entristecido e violentando muitos relacionamentos. Não são raros os exemplos de pais que se queixam dos filhos que os abandonam quando são velhos. Sem justificativa, muito menos hipocrisia, nessa hora vale a pena refletir: que pais foram esses senhores quando os filhos eram ainda crianças? Que ambiente essa casa representava para as pessoas que nela moravam? Havia aconchego? Ternura? Carinho?
Precisamos exercitar o olhar para alcançar a visão da vida futura e com isso entender que somos responsáveis pelas coisas que nos acontecem. Tenho estimulado esse exercício em jovens alunos a fim de ajudá-los a compreender alguns sacrifícios da vida escolar. Peço a eles que se imaginem daqui a 10 anos fazendo um registro escrito das suas ambições. Em seguida, o cenário imaginado se transforma em objetivos de um detalhado plano de ações: o que preciso fazer hoje para conquistar meu sonho amanhã?
Não há mágica nesse processo. Precisamos cuidar do que queremos; investir tempo, trabalho, energia e sentimento. Não há casamento feliz sem fortalecimento do amor dia após dia. Não há atleta olímpico sem treino diário. Não há sucesso profissional sem dedicação plena. Não há filhos que sintam prazer pela companhia dos pais sem antes ter vivido a relação de apoio e compreensão, de amor sincero e incondicional.
Volto a afirmar, não há destino pronto e definido. E pensando bem, assim é melhor, afinal a beleza da existência humana está exatamente neste poder: construir e reconstruir a vida que queremos ter.
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