A vitória de Obama

(Neste clima de reeleição do Presidente dos EUA, resgato uma crônica escrita na época da sua primeira vitória. As palavras e o sentimento ainda são atuais)
Acabo de receber um e-mail da minha sobrinha, expressando sentimentos de euforia e alegria. Caloura da universidade americana e no auge da sua juventude, ela diz da festa dos jovens universitários pela vitória de Barack Obama à Presidência dos EUA. Animada e convicta dos seus ideais, gravou seu discurso para a cidade de Chicago e o traduziu ao português: “(...) para aqueles que querem destruir o mundo, nós os venceremos. Para aqueles que querem paz e segurança, nós os apoiamos. E para todos aqueles que se perguntam se a tocha da América continua a brilhar tão forte quanto antes, hoje provamos mais uma vez que a força de nossa nação não vem da força de nossos braços ou da riqueza de nossa economia, mas do poder de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e esperança incondicional. Essa é a verdadeira beleza da América: que a América pode mudar”.
As palavras de Obama e o sentimento da minha sobrinha me tocaram de 2 maneiras. Primeiro, pela tristeza: sinto-me contaminada pela desesperança. A crença política e a certeza de que o mundo pode ser diferente não moram mais em mim. E segundo, pela saudade: só eu sei que falta faz a convicção dos ideais defendidos na juventude.
Assim, possuída desses sentimentos, resolvi me enfrentar: que pessoa me tornei? O que move minha vida? Embora o saudosismo não faça parte da minha personalidade, percebi-me incomodada com as lições de quem já entendeu que a política é um grande jogo de interesses econômicos e que as palavras do discurso de Obama são poesia aos ouvidos, mas estão distantes das ações de fato.
E nessa hora, paradoxalmente, acabei recuperando a alegria. Superar o olhar ingênuo da juventude é necessário e compensador: a maturidade nos oferece bom humor, paciência e realidade. Apesar da beleza e encantamento que o olhar da juventude nos empresta, ele cega a realidade e nos conduz ao erro.
Mas não posso dizer isso a minha sobrinha. Pelo menos não agora. Sinceramente, prefiro que ela continue acreditando que a América pode mudar o mundo. Além do que, eu bem sei como a juventude precisa dos ideais, do engajamento político e da certeza de que se é possível transformar a sociedade. São esses sentimentos, revestidos de maturidade e sabedoria que nos permitem compreender que a maior transformação está dentro da gente mesmo. E que a vida é uma grande roda: a todo tempo podemos nos transformar e transformar o outro. Somos a mistura do outro. O poeta versou e a cantora musicou[1]: “Eu não sou eu, nem sou o outro. Sou qualquer coisa de intermédio. Pilar da ponte de tédio. Que vai de mim para o outro”.
Aliás, prefiro entender a vitória de Obama a partir dessa análise: a vida que não para de girar permitiu ao povo americano a oportunidade do perdão. Ao eleger o primeiro presidente negro, o povo pediu desculpas ao mundo por tanto tempo de racismo e preconceito.
E isso me conforta.
[1]Adriana Calcanhotto musicou: “O outro”, poema de Mário de Sá Carneiro - poeta português contemporâneo de Fernando Pessoa e incomodado com a própria existência.