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Publicado: Quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A vitória de Obama

A vitória de Obama
Ao (re)eleger o primeiro presidente negro, o povo americano pediu desculpas ao mundo por tanto tempo de racismo e preconceito.

(Neste clima de reeleição do Presidente dos EUA, resgato uma crônica escrita na época da sua primeira vitória. As palavras e o sentimento ainda são atuais) 

Acabo de receber um e-mail da minha sobrinha, expressando sentimentos de euforia e alegria. Caloura da universidade americana e no auge da sua juventude, ela diz da festa dos jovens universitários pela vitória de Barack Obama à Presidência dos EUA.  Animada e convicta dos seus  ideais, gravou seu discurso para a cidade de Chicago e o traduziu ao português: “(...) para aqueles que querem destruir o mundo, nós os venceremos. Para aqueles que querem paz e segurança, nós os apoiamos. E para todos aqueles que se perguntam se a tocha da América continua a brilhar tão forte quanto antes, hoje provamos mais uma vez que a força de nossa nação não vem da força de nossos braços ou da riqueza de nossa economia, mas do poder de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e esperança incondicional. Essa é a verdadeira beleza da América: que a América pode mudar”. 

As palavras de Obama e o sentimento da minha sobrinha me tocaram de 2 maneiras. Primeiro, pela tristeza: sinto-me contaminada pela desesperança. A crença política e a certeza de que o mundo pode ser diferente não moram mais em mim. E segundo, pela saudade: só eu sei que falta faz a convicção dos ideais defendidos na juventude. 

Assim, possuída desses sentimentos, resolvi me enfrentar: que pessoa me tornei? O que move minha vida? Embora o saudosismo não faça parte da minha personalidade, percebi-me incomodada com as lições de quem já entendeu que a política é um grande jogo de interesses econômicos e que as palavras do discurso de Obama são poesia aos ouvidos, mas estão distantes das ações de fato. 

E nessa hora, paradoxalmente, acabei recuperando a alegria. Superar o olhar ingênuo da juventude é necessário e compensador: a maturidade nos oferece bom humor, paciência e realidade. Apesar da beleza e encantamento que o olhar da juventude nos empresta, ele cega a realidade e nos conduz ao erro.        

Mas não posso dizer isso a minha sobrinha. Pelo menos não agora.  Sinceramente, prefiro que ela continue acreditando que a América pode mudar o mundo. Além do que, eu bem sei como a juventude precisa dos ideais, do engajamento político e da certeza de que se é possível transformar a sociedade. São esses sentimentos, revestidos de maturidade e sabedoria que nos permitem compreender que a maior transformação está dentro da gente mesmo. E que a vida é uma grande roda: a todo tempo podemos nos transformar e transformar o outro. Somos a mistura do outro. O poeta versou e a cantora musicou[1]: “Eu não sou eu, nem sou o outro. Sou qualquer coisa de intermédio. Pilar da ponte de tédio. Que vai de mim para o outro”. 

Aliás, prefiro entender a vitória de Obama a partir dessa análise: a vida que não para de girar permitiu ao povo americano a oportunidade do perdão. Ao eleger o primeiro presidente negro, o povo pediu desculpas ao mundo por tanto tempo de racismo e preconceito. 

E isso me conforta.  

   

 

 

 



[1]Adriana Calcanhotto musicou: “O outro”, poema de Mário de Sá Carneiro - poeta português contemporâneo de Fernando Pessoa e incomodado com a própria existência.

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