Arrogância e equívoco na função da escola

O último texto desta coluna deu tanto o que falar que achei por bem ficar um tempo em silêncio, reservando-me um espaço para pensar e refazer as ideias... No entanto, é hora de voltar.
Acompanhei as manifestações dos leitores no Facebook sobre a posição crítica que assumi frente à nota zero nas provas escolares. Confesso gostar do debate e da polêmica; só assim podemos rever conceitos, esticar o olhar e abrir a mente.
De todas as manifestações, uma em especial causou-me profundo desconforto filosófico. E por incrível que pareça, partiu de um professor. A ideia de que a escola deve reproduzir o mercado de trabalho, mantendo em suas ações a mesma rigidez, crueldade e seletividade é no mínimo a confissão do despreparo para a função. Melhor dizendo, essa manifestação confirma a estatística dos professores especialistas que dominam suas disciplinas, mas ignoram a psicopedagogia, a didática e a epistemologia.
A escola básica definitivamente não é a reprodução da vida em sociedade, muito menos do mercado de trabalho. Ela é sim o antídoto, a reflexão, a crítica e a coragem da transformação deste mundo que fizemos. E lembrando Sartre, a escola pode e deve nos ajudar a “saber o que fazer com o que fizeram de nós”.
Com isso não estou afirmando que a escola deve fechar os olhos, erguer os muros, que já são altos, e isolar-se no seu tempo e espaço. Ela deve sim dialogar com a sociedade para garantir melhoramento e evolução da humanidade. Entender o seu tempo para fortalecer as possibilidades de transformação e quebrar paradigmas.
A não ser que estejamos completamente satisfeitos com a sociedade que fizemos, não é verdade?
Na escola os meninos estão em formação, com energia para enxergar o que nos cega, vencer desafios e construir o novo. Como disse a escritora Anna Osta,“desde que o ser humano existe, é o jovem que rompe com as normas vigentes e os modelos estabelecidos, além de ampliar os horizontes das possibilidades e da aceitação de novas regras."
Por isso desejar a reprodução do mundo adulto nos espaços escolares é o mesmo que desejar que o mundo se mantenha estático e inerte. O mundo não está pronto. Os homens não estão prontos. Estamos em constante movimento e construção com muito a fazer e a aprender.
Pensar que a trajetória que fizemos é o caminho certo que os jovens devem seguir, além de arrogante é ideia equivocada, sobretudo na educação.
Professores que ensinam o que sabem pararam no tempo, estacionaram a inteligência e afetarão negativamente as sociedades futuras. Professores devem ensinar o que o aluno precisa aprender e para isso, exercitar a mente aberta, o respeito ao outro, a desconfiança das convicções e a compreensão de que o mundo não se faz pelas certezas. Aliás, muito pelo contrário.