Cuidado e atenção com a verba da educação

Tenho percebido, nas visitas técnicas às secretarias municipais da educação, a falta de atenção e cuidado com a aplicação da verba destinada à educação pública.
Garantida por lei e com intenção estratégica de gerar avanços nos resultados de aprendizagem dos alunos, sabemos todos que a verba destinada à Educação é bastante significativa, se comparada às demais áreas públicas. Ainda bem. Melhorar a qualidade da educação básica é hoje o maior e mais importante desafio do país no campo das políticas sociais.
O problema é o impacto que essa verba tem causado no mercado. De olho na maior fatia do bolo, ou do queijo, empresários espertalhões criam e vendem ilusões aos gestores inocentes e desejosos do destaque político que um bom avanço nos resultados educacionais pode render.
Contratos milionários, muito bem amarrados legalmente, têm levado a verba da educação para bem longe da sua real finalidade. Além de levar dinheiro, essas empresas levam, também, a auto-estima e a capacidade intelectual dos educadores locais.
Como assim? Vou explicar.
Para justificar valores, muitas dessas empresas entregam além do produto - que variam desde apostilas até equipamentos de alta tecnologia -, metodologias enlatadas, num passo a passo medíocre, dizendo ao professor o que ele deve fazer e replicar na sua sala de aula. Eu sei que para muitas realidades, onde os professores ainda são leigos, essa saída, por algum tempo, poderia gerar algum resultado (sinceramente: ainda assim, ouso duvidar!). Mas frequentemente, o significado desse gesto é altamente desastroso, porque diz, entrelinhas, que o professor local não é capaz de criar, pensar e aplicar estratégias de aprendizagem aos seus alunos.
Precisamos tomar cuidado com fórmulas prontas que prometem resultados na aprendizagem. Todo bom educador sabe o que, verdadeiramente, melhora a qualidade da educação brasileira: boa formação de professores, condições dignas de trabalho, salários adequados, ambiente estruturado e capacidade de gestão democrática das lideranças.
Todo o resto é pretexto. Lousa digital, kit sustentabilidade, metodologia importada, material apostilado e demais recursos são bem-vindos e podem ajudar, mas não garantem desempenho de aprendizagem, se à frente da sala de aula o professor não estiver bem formado e preparado.
Por isso, penso que a verba da educação precisa de atenção e cuidados redobrados. Não sou contra parcerias adequadas e bem planejadas às liderenças educacionais. Aliás, elas são necessárias: contar com outros pontos de vistas, saberes e competências é fundamental para quem deseja acertar na difícil missão gestora.
Mas tudo isso deve ser personalizado. Parceiros, consultores e assessores precisam pensar e elaborar COM a secretaria da educação soluções possíveis e contextualizadas ao que se pretende; respeitando a identidade, a história e, principalmente, a capacidade intelectual local.
Sem esse cuidado, gasta-se muito dinheiro, enriquece alguns empresários e pouco desempenho produz na aprendizagem dos nossos meninos.