Cuide do seu sentimento

Às vezes as duras emoções nos levam a questionar a vida, a profissão e os valores construídos.
Conversando com uma amiga psiquiatra, compreendi que essa sensação pode brotar dos sentimentos despertados por uma grande perda, onde a tristeza, o medo, a angústia tomam conta da mente em doses superiores a que podemos suportar. Mais ainda quando a sensibilidade é característica da personalidade, permitindo que os sentimentos invadam as emoções de tal forma que se tornam incontroláveis. Um processo muito próximo a depressão.
Por isso é necessário estar atento aos sentimentos. Num mundo individualista, repleto de pressa e pressão, precisamos fazer mais as coisas que gostamos, buscar as sensações de conforto e felicidade interior, facilitando assim a estimulação e a produção química dos hormônios que protegem a vida dos neurônios e a sanidade mental.
O nosso corpo é uma máquina movida pela produção e liberação hormonal e a dose certa, equilibrada e funcional depende de fatores externos, como alimentação, trabalho, atividade física e mental, pensamento e linguagem. Tudo que levamos para dentro do nosso corpo interfere nesse processo.
Minha mãe terminou a vida dominada pela disfunção hormonal que a fez vítima de uma depressão profunda. Foram 10 anos de luta interna e triste alienação do mundo. Nem sempre os remédios dão conta, embora a medicina tenha conquistado cada vez mais novas descobertas na vontade interminável de conhecer, controlar e recuperar o cérebro humano.
Cuidar dos sentimentos é essencial. A raiva, o rancor, a mágoa, a teimosia e tantos outros sentimentos ruins apagam os neurônios e nos envelhecem precocemente até a morte. As pessoas tristes são mais feias, mais acabadas, mais doentes...
Tal consciência tem me levado a tomar algumas decisões, retomar projetos e sonhos abandonados, refazer contatos de amizades e reconstruir histórias que ficaram esquecidas. Hoje compreendo porque muita gente transforma a vida, muitas vezes impactando a sociedade com obras de grande valor, depois de ter vivido uma grande tragédia. A fatalidade nos apresenta apenas duas opções: ou você aprende com ela e refaz a sua história, ou você se entrega a ela e finaliza a sua história.
Confesso que frente à morte da minha mãe tive dúvidas de que lado ficar. No entanto, a inteligência, a auto-estima e o compromisso com a vida, sempre tão presentes em minha razão, tem me ajudado a levantar da cama diariamente, conduzir o tempo e, como diz Almir Sater, em uma das músicas que gosto tanto, acreditar “que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente... Como um velho boiadeiro levando a boiada, eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou. Estrada eu sou...”