Impressões Itinerantes e Palavras Ciganas

Impressões Itinerantes:
Tenho medo das doidas palavras que moram dentro de mim. Já disse isso tantas vezes, revelando seu poder e domínio: sou escrava das palavras. Ah, as palavras. Como diz Lya Luft, são como plumas ou punhais: jogadas de um lado para outro as palavras naufragam verdades e emergem fingimentos.
Ultimamente, as palavras andaram adormecidas e nesse bom espaço de tempo de sono tranqüilo e silêncio calmante, pude gozar da vida leve e solta, quase alienada: de corpo mole e cabeça vazia, feito a geração das roupas largas, alpargatas de cordas e cabelos despenteados.
Essa mansa sensação, de afetos sossegados, tem o jeito do meu pai, que aprendeu a ouvir o pensamento e conversar com ele na vida solitária de viúvo precoce. Mia Couto, escritor moçambicano, de belas palavras e pensamento profundo, mesmo sem nunca ter visto meu pai, o descreveu em cheio: “eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo silêncio é música em estado de gravidez”
Quando as palavras se calam e o silêncio vem morar comigo, sinto-me livre. Talvez a recompensa pelos anos vividos seja mesmo essa: a maturidade nos liberta da gente mesmo. Tenho horror às mágoas e lembranças enraizadas na bagagem psíquica que carregamos pra lá e pra cá. Quero ser livre para engolir o presente e digerir o sentimento: sem vínculo, sem pressa e sem vergonha. Quase cigana.
Palavras Ciganas:
Sobre Montevidéu - Adoro o vento gelado do Uruguai. Ele quebra os ossos, queima a pele e racha os lábios da gente. Nesse desmanche todo, podemos morrer, ainda que brevemente, para nascer de novo.
Sobre Santana do Livramento - Quase esquecida e tão distante destas nossas terras; é um pedacinho gaúcho de amores divididos. Durante o dia, dedicação brasileira; à noite, paixão uruguaia. Em resposta ao muito obrigado, se ouve “merece” e nessa singela palavra, tamanha incompreensão cultural de um país sem tamanho.
Sobre São Paulo – Na cidade dos sonhos, um lugar de intensa multiplicidade. Na multidão paulistana, escondem-se todos. Revelam-se tantos. Trocamos de rosto e somos outro.
Sobre Havard - Nela, choro a emoção da culpa. Sinto o peso nas costas da filogênese humana. E na relação de interdependência com o conhecimento acumulado, pergunto: como dar conta de tanta história?
Sobre Boston – Com ares ingleses revela-me a dura verdade: essa mulher que sou, hoje e agora, é apenas uma parte de mim. A outra voa pelo mundo: sem dono, sem culpa e sem destino.
Sobre Itapicuru e Olindina – Em terras baianas, faço amor com Guimarães Rosa; rasgo seus dizeres e devoro a vida sertaneja. Sua história cava um buraco imenso dentro da gente para, aos poucos e lentamente, se mostrar: dura e bela, simples e repleta.
Sobre a Serra do Rio do Rastro – Imponente: gigante pela própria natureza. Suas curvas inspiraram Oscar Niemeyer e sua viração, ainda é um agradável mistério.
Sobre o Saco do Mamanguá – Entre “laladas” e “generosas” belezas, Mamanguá nos pergunta: quem disse que a vida não pode ser perfeita?
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E você, que me lê, que tal compartilhar as suas palavras ciganas?