O coração reclama, o papel responde

Entre o desejo e o ato de escrever há um espaço de dor: o coração reclama, o papel responde. Um sentimento desconfortável; é verdade. Primeiro, porque a tendência do corpo humano é buscar o prazer. Mesmo que possa representar alienação, a mente tende a desviar-se de tudo que se oponha à zona de conforto e às certezas fáceis. Pensar dói. E segundo, porque escrever é um exercício exigente: demanda esforço, cuidado, atenção e muita paciência. Só quem escreve com freqüência sabe do que estou falando.
Talvez a metáfora para descrever essa sensação se mostre no processo de evolução das plantas, que permanecem por um bom tempo invisíveis, crescendo e formando-se no subterrâneo, até se mostrarem belas e exuberantes.
Assim é com a publicação de um texto: no início a semente (ideia) depositada no terreno (mente); depois, a espera - invisível ao outro - de profundo incômodo. Se o terreno é fértil: planta viçosa, bonita. Se o terreno é árido: planta miúda, feia.
A semente/ideia depositada em minha mente tem provocado a reclamação constante do meu coração: a indignação profunda com os escândalos políticos deste nosso país. E é dela que as palavras nasceram.
Num momento onde acabamos de escolher nossas lideranças municipais, tenho medo - por isso o coração reclama - de que a decepção e a frustração com as atitudes dos políticos corruptos, que põem dinheiro público no bolso ou na conta, por propina ou por desvio de recursos, nos levem a desistir da cidadania. E digo isso, porque estamos todos bem cansados: já não suportamos mais tanta roubalheira num país sem vergonha, sem punição e sem fiscalização.
Toda vez que esse cansaço grita forte, lembro de Paulo Freire a nos dizer que “é necessário precisamente por causa deste cansaço lutar contra ele e não assumir a posição fatalista, forjada pelo próprio sistema, e de acordo com a qual nada há que se fazer, a realidade é assim mesmo.”
Sim, as palavras de Freire nos provocam à compreensão da responsabilidade coletiva. Enxergar o espaço público, seja ele uma praça, escola ou hospital, como um local para a prática ética, com profundo senso de responsabilidade em relação ao outro e de intensa interdependência, é o primeiro passo para combater “o deixa prá lá”, “isso não me afeta”, “prefiro nem saber”.
Como diz Cristovam Buarque, precisamos “reagir contra o cinismo de políticos e de eleitores, nas eleições. Repudiar o político que não cumpre as promessas que fez na campanha, e o eleitor que vota debochadamente, apenas por interesse pessoal imediato.”
Complicado? Talvez. Mas, como já disse muitas outras vezes, viver dignamente não é simples; fácil é deitar na rede e esperar a vida passar. Então, vamos lá: com força, coragem e ousadia, precisamos todos, sem exceção, desenvolver o hábito da fiscalização, da cobrança e da participação. Nas palavras da Profª Terezinha Rios - a quem tanto respeito e admiro -, “o cidadão somente se sentirá dono do espaço em que vive se aprender a construí-lo”.
E isso vai muito além da escolha do candidato nas urnas de eleição.