Publicado: Domingo, 22 de julho de 2007
O dia depois do amanhã - sabor vôo 3054

Pra quem não assistiu, esse filme é uma réplica do terror ao dia seguinte de uma grande tragédia.
Indiretamente, me vi no meio do olho do furacão do vôo 3054, no dia seguinte, eu tinha um retorno inadiável Salvador-SP programado pra quarta feira de manhã.
Pra começar, a noite foi difícil, tenho enlatado um medo de avião que não consegui resolver ainda, sempre evoco minhas proteções espirituais pra subir e descer em qualquer avião. O que consegui, em 45 anos, são pequenos progressos em viagens domésticas pra poder dar conta da demanda da vida, mas outros passos maiores, confesso que ainda não cheguei nem em terapia.
Na manhã de quarta feira, ao chegar ao aeroporto, o inferno estava instalado nos quatro cantos do país, com codinome www.vamosterquevoar.com.br.
De tudo um pouco: silêncio, indignação, medo, indiferença reacional, racionalidade funcional... mas era estampado na cara de todos clientes e funcionários um extremo desconforto, daqueles que retiram nosso verniz social.
De repente, nos vimos envolvidos em rede de solidariedade e tristeza, e por sermos secundários a dor e a revolta, reagimos quase todos com um silencio mortal, questionador, duvidoso, passivo.
Não tenho criticas ferrenhas direcionadas, mas uma questão carnal: quem vai nos confortar, tranqüilizar e devolver uma sanidade pelo menos racional pra que a gente continue usando o espaço aéreo do país?
Mal dormi pensando em poder voltar, em um amigo querido que teria que embarcar pra Brasília via Congonhas; em outro ainda mais querido que desembarcaria via Ribeirão, em Congonhas, nos dias subseqüentes.
Senti-me envolvida por uma insegurança mórbida, órfã de respostas, coadjuvante a uma dor absurda de pelo menos 200 famílias, mas igualmente refém, porque preciso do esquema aéreo para trabalho e sobrevivência, como milhões.
No aeroporto de Cumbica, colidi de frente com dores iguais, silêncios iguais, olhares temerosos iguais e me senti perdida, sem respostas.
A única resposta referencial era o painel de informação dos vôos (atrasados e cancelados).
Longe de direcionar ou tangenciar uma polêmica numa questão tão multifacetada,
que envolverá zilhões de possibilidades confusas e punitivas, pergunto:
Quem vai aquietar meu coração, de cidadã, de cumpridora com meus deveres, de crédula no poder publico e no compromisso social?
Quem vai calar a morte de cerca de 200 pessoas? Outra tragédia? Outro assunto? Outro escândalo?
Escuta, vamos acordar? Vamos aterrisar e sair da nossa zona de conforto?
Isso é muito mais do que uma postura de governo, é uma postura de respeito, de compromisso. De todos.
Vivemos infelizmente, uma Era aonde os vilões de novelas são mais interessantes e dão ibope e aonde o inconsciente coletivo torce pra um final feliz pra eles (?) Ouvi, no Congresso aonde me encontrava, em Salvador, de uma nobre (com “N” maiúsculo) ex-deputada, que absorvemos a imoralidade como “modus vivendi”, porque estamos carentes de respostas coletivas. Se ninguém dá um jeito, vamos ao “jeitinho”...
Não é um problema de governo, é um problema muito maior, de comodidade silenciosa, insana, confortável e irreflexiva.
Páre pra pensar e comova-se com a dor alheia. Isso não é novela, é mundo real.
E garanto que assistir de camarote ao desespero, silêncio, turbulência no ar, dor real a poucos metros da minha blindagem pessoal foi como um tsunami.
Foi como “O dia depois do amanhã”, aonde o que resta após a tempestade são os valores de sobrevivência e parceria.
Em terra firme, vou agora cuidar do meu estomago, que gritou muito nesta quarta feira nervosa. Mas não me conformo que as pessoas chorem diante da TV... Respeito é algo maior, é atitude!
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