Palavras da verdade

Diz o poeta que a palavra é a música do coração. De fato, mas não todas. Somente as palavras da verdade. Palavras da verdade são aquelas que tocam o coração. Ninguém as conhece mais do que as crianças: dizem do que sentem e pronto. São felizes.
Tristes somos nós que já crescemos. Trocamos as palavras da verdade pelas da mentira. Palavras da mentira são aquelas que dizem o que o outro quer ouvir. E nos enganam: passamos a acreditar no que falamos. Talvez por isso Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, tenha dito: “Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim”.
Marina Colasanti, escritora reconhecida por traduzir em sua obra os fatos cotidianos, a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade, publicou em seu livro “A casa das palavras” o resultado de um jogo realizado com crianças na escola. Nele, as crianças foram convidadas a dar o significado de algumas palavras, na maioria por elas próprias escolhidas. Como são crianças, disseram as palavras da verdade e muito nos ensinaram. Vale conferir:
Dinheiro: É o fruto do trabalho, mas há casos especiais. (Pepino Nates, 11 anos)
Igreja: Onde se vai para perdoar Deus. (Natalia Bueno, 7 anos)
Mãe: A mãe é a pele da gente. (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
Amor: É o que cada coração junta para dar a alguém. (Lina Maria Murillo, 10 anos)
Deus: É o amor com cabelo comprido e poderes. (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
Ausência: É que eu vou morrer. (Yorlady Rave, 8 anos)
Lar: O lar é alguma coisa que de repente se separa. (Juliana Escobar, 10 anos)
Medo: É que a minha mãe dirige um carro e uns senhores do viaduto não podem comer e quebram o vidro do carro e matam ela e matam meu pai e eu vivo sozinho. (Orlando Vásquez, 6 anos)
Nascer: É um momento que temos quando somos pequenos. (Wilson Taborda, 11 anos)
Tranquilidade: Por exemplo, que o pai diga que vai bater e depois diga que não vai mais. (Blanca Helao, 10 anos)
E assim, com essas poucas palavras, a lição ensinada pelas crianças se multiplica: além do compromisso com a verdade, dita com tanta honestidade, revela a mais cruel das constatações: em nome da maturidade, perdemos a liberdade de quem não precisa se preocupar com a imagem, com a política, com o network, com a hipocrisia e com o que “os outros vão pensar.”
Tristes e mentirosos ficamos!